terça-feira, 22 de setembro de 2009

UM POUCO SOBRE BRIGAS E COMPORTAMENTO ANTI-SOCIAL NA INFÂNCIA


Dra. Lidia Natalia Dobrianskyj Weber

Coordenadora do Projeto Criança – lidia@ufpr.br

A brigas comuns fazem parte da infância e não dá para viver sem elas. Discutir e brigar faz parte do aprendizado em relação à resolução de conflitos de maneira geral, ou seja, as crianças também aprendem brigando uns com os outros. Por outro lado, os pais não devem menosprezar as brigas e os sentimentos que daí advém. Uma menina de quatro anos que briga com sua amiga porque a mesma não quis ficar no recreio com ela e conta o fato para sua mãe espera compreensão e apoio. Embora não pareça para os adultos, este é um problema sério para a menina e não adianta dizer “isso não é nada, logo vai passar” ou, pior ainda, “ah, querida, quando você casar, isso sara...”. As crianças precisam aprender a valorizar as emoções, a discriminar sentimentos e emoções, a sentir compaixão, empatia... isso é o que tanto se fala de inteligência emocional. Dizer para a criança “isso não é nada” só prejudica o desenvolvimento de sua inteligência emocional, pois ela ficará confusa sobre os seus próprios sentimentos. Em vez de dizer que não é nada, é preciso aproveitar e sentar com a criança e conversar a respeito.

As brigas são comuns e também fazem parte da infância. Criançassão capazes de brigar cem vezes por dia. É preciso monitorar (estar por perto, supervisionar), mas não necessariamente interferir o tempo todo. Eles precisam também aprender a administrar as brigas e saber resolver conflitos. É preciso interferir quando somente um está abusando de outro; é preciso parar imediatamente o comportamento agressivo, verificar se não se está demonstrando preferência e sendo injusto de alguma forma (colocar só um de castigo por exemplo, causa ciúme e pode aumentar as brigas) e cuidar para não dar castigos maiores para os mais velhos pela mesma desobediência.

Como criar vínculos de amizade entre crianças? É preciso que os pais ensinem a importância do vínculo, do dividir; do lidar com conflitos e ciúmes, do partilhar amor e carinho.

É preciso admitir o ciúme e conversar sobre ele, propiciar momentos para a aprendizagem das próprias emoções (autoconhecimento) e as emoções dos outros (empatia). Às vezes é bom admitir que estamos com ciúmes porque com o seu ciúme ele vai aprender a ter mais resistência a frustração, a entender diferenças. Não adianta proibir a manifestações dos sentimentos, sejam eles quais forem – o que não pode é agressão e violência.

A amizade entre as crianças surge quando elas entendem a noção de justiça, de tratamento igual e, ao mesmo tempo, de flexibilidade, que as coisas podem ser diferentes em tempos diferentes. O que não pode é fazer “comentários comparativos”. Isso não leva a nada e pode aumentar os conflitos. Na forma de educar, é melhor dizer claramente o que deseja, sem comentários maldosos ou irônicos. Mas lembrar-se que as crianças são indivíduos diferentes é essencial....


No entanto, algo está errado se:

Há um número excessivo de brigas e de queixas contra seu filho, especialmente na escola; é chamado um problema de externalização (distúrbio de conduta).

comportamento agressivo (discussão, atitude maldosa, brigas, ataques, raiva excessiva, destruição de objetos) . Muitas brigas o tempo todo denotam o que se chama de comportamento anti-social. Normalmente a crianças com comportamento anti-social pode ter tido vários determinantes para isso, geralmente associados: vítima ou expectador de violência e/ou maus-tratos em casa; falta de supervisão e monitoria (limites) dos pais; convivência com outras crianças que também passaram por isso; rejeição pelos colegas e fraco desempenho acadêmico; quando a agressividade se estabelece, ela é cada vez mais rejeitada pelos pais e os únicos companheiros que a aceitam são outras crianças agressivas/anti-sociais. É aquele tipo de criança que está sempre provocando os outros, mostrando uma clara falta de habilidades sociais: ele não consegue obter atenção apresentando comportamentos pró-sociais, então a criança obtém a atenção por meio de atitudes anti-sociais.

Se a criança tenta machucar (física ou psicologicamente) outra pessoa porque ela está zangada, porque quer algo do seu modo ou porque quer simplesmente dominar e controlar outro existe um problema. Os pais nunca devem permitir comportamentos agressivos e violentos, que traz cada vez mais conseqüências negativas para a criança e para o futuro adolescente e adulto. Certa vez, eu observei um menino em um hotel, que vivia provocando os outros, especialmente um outro menino muito bonito e quieto (e que não respondia às provocações). Os monitores reclamaram para o pai dele e o pai comentou com a mãe: “adivinhe só o que aconteceu de novo?”, mostrando que aquele era um comportamento freqüente para o menino. Ao observar a família na hora do almoço, o comportamento do pai era com esse menino era coercitivo o tempo todo: “feche a boca filho, sente direito, não pegue isso para ele, você não é empregado dele...” e coisas desse tipo... ou seja, o modelo inadequado vinha da própria casa.

O comportamento anti-social, especialmente o agressivo deve ser impedido imediatamente:

· pare o comportamento da criança ao observar, mesmo que precise segurá-la; converse com voz firme;

· coloque a criança sentada para que possa refletir sobre sua ação (ficar sentado um tempo sem fazer nada) chama-se “time-out”;

· após o time-out converse com ela sobre comportamento agressivo e perigoso;

· ajude-a a descrever de outras maneiras como poderia ter se comportamento sem ser agressiva e anti-social (se for provocada, chamar um adulto, gritar por ajudar, conversar etc.);

· explique que ninguém gosta de amigos briguentos e que as pessoas vão se afastar dele. As pesquisas mostram que as crianças que brigam muito são as mais rejeitadas pelos colegas. Crianças agressivas/rejeitadas tendem a entender que a agressão é uma boa maneira para resolver problemas e tendem mais a ver o comportamento de outros como hostil: por exemplo, leva uma bolada nas costas e acha que foi de propósito;

· Não apenas censure, mas dê apoio e ajude-a a aprender a se comportar de outra maneira;

· Ajude a criança a desenvolver habilidades sociais: pedir, solicitar, pedir desculpas, ouvir, trocar, emprestar etc...

· Informe a família. Lembre-se que os pais são os melhores modelos!

Considere pedir ajuda profissional a um psicólogo se o comportamento de brigar for absolutamente recorrente e sistemático e resistente a mudanças. Ele foi aprendido e deve ser desaprendido, pois as conseqüências tendem a ser piores no futuro.

Antes de tudo, é preciso um modelo de não-violência em casa A crianças precisa aprender formas adequadas e não-agressivas para enfrentar conflitos. Técnicas de autocontrole, para os pais e para os filhos são boas medidas. Vale contar até 20 ou fazer tai-chi-chuan, o importante é manter um baixo nível de estresse e melhor qualidade de vida. Com mais calma e mostrando um bom modelo para os filhos


2 comentários:

ulissesmusso disse...

Adorei o tema do comportamento ani-social das crianças. Eu estava precisando, pois sou supervisora e lido sempre com estes problemas.Gostaria de receber mais coisas sobre o mesmo assunto.Zia

Anônimo disse...

Adorei a reportagem do comportamento anti-social das crianças, claro e objetivo. Estava precisando. Sou supervisora e lido com estes problemas. Sempre que puder me envie outras do mesmo assunto.Meu email é: ziamaciel@yahoo.com.br